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O Alemão que Mapeou o Brasil

Postado por ACG - Associação Cultural Gramado domingo, 26 de fevereiro de 2017 Marcadores: , 0 comentários

Há dois séculos, Carl von Martius chegou ao país junto com a imperatriz Leopoldina. Partiu após três anos, deixando como legado um meticuloso levantamento da flora brasileira: o maior já realizado até hoje.

Há 200 anos, Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) chegava ao Brasil como um dos integrantes da Missão Austríaca – que acompanhava a imperatriz Leopoldina por ocasião de seu casamento com dom Pedro 1º. A aventura do jovem botânico alemão, que percorreu mais de dez mil quilômetros por um Brasil inóspito, marcaria um dos mais importantes momentos para o conhecimento da flora nacional até então exótica e inatingível no imaginário mundial.

Durante os três anos em que passou no país (entre 1817 e 1820), Von Martius fez um meticuloso levantamento da flora brasileira – o maior já realizado. E a partir deste estudo, ele dividiu o Brasil em cinco biomas (Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Selva Amazônica e Pampas), uma divisão usada até hoje.

Para marcar a data, foi aberta no último fim de semana, no Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio, a exposição "O mapa de Von Martius ou como escrever a história natural do Brasil". A exposição tem justamente como ponto de partida o mapa criado em 1858, em que o botânico propõe uma divisão regional para o país a partir dos biomas detalhados em sua expedição.

"Von Martius não foi o único a fazer uma proposta de regionalização do Brasil, mas teve essa visão de tentar compreender o território todo", explica a coordenadora de iconografia do IMS e curadora da exposição, Julia Kovensky. "Com o levantamento das plantas, ele visualizou esses grandes conjuntos, definiu biomas, e transferiu isso para uma divisão territorial do país."

Em companhia do zoólogo Johann Baptist von Spix, Von Martius fez expedições pelas regiões Norte, Nordeste e Sudeste, colhendo e catalogando uma vasta quantidade de espécimes vegetais. Ele retratou as paisagens em litografias, compiladas na obra Flora brasiliensis (até hoje uma referência), reunindo 20 mil espécimes vegetais em 40 volumes. A exposição reúne 50 dessas paisagens, além do mapa.

"Estamos apresentando um pequeno conjunto de obras do primeiro volume da Flora brasiliensis, que são dedicados às paisagens brasileiras com as plantas inseridas", explica Julia. "São litografias com paisagens de diferentes regiões do Brasil, além do mapa com os biomas e algumas obras complementares."

O mapa dá um pouco da dimensão da aventura de se lançar pelo interior do país naquela época, até a região da atual fronteira com a Colômbia, saga relatada pelo naturalista nos três volumes do livro Reise in Brasilien ("Viagem pelo Brasil"), publicado entre 1823 e 1831. O trabalho vai além da questão da flora e retrata um país em transformação, que se tornara a capital do Império português poucos anos antes e se abria para o mundo.

 "Ele tinha um grande interesse por ciências naturais, mais especificamente por botânica", conta Júlia. "Mas, como muitos outros homens de sua época, tinha uma visão muito ampla e atuou em diferentes frentes."

De acordo com a historiadora Iris Kantor, da Universidade de São Paulo (USP), que também participou da curadoria da exposição, o levantamento feito por Von Martius produziu uma imagem do Brasil que até hoje está incorporada ao imaginário das elites. Para ela, analisar criticamente essa imagem é um desafio importante para compreender o país.

"Ele foi sem dúvida um dos pais fundadores da historiografia brasileira e de uma certa maneira de se fazer história", afirma Iris.

Em 1843, de Munique, Von Martius encaminhou uma proposta de como se deveria escrever a História do Brasil para um concurso organizado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Seu programa de estudos incluía, pela primeira vez, a incorporação da participação popular na grande narrativa sobre a formação da nacionalidade.

"Assim, além dos indígenas e dos portugueses, ele sugeria a inclusão das populações de origem africana", diz Iris. "Algo muito atual como, por exemplo, o estudo da história do tráfico negreiro e das feitorias portuguesas no continente africano. Ele também chamou a atenção para a necessidade de investigar os mitos e tradições indígenas, por meio da incorporação da documentação oral."

A exposição no IMS pode ser vista até 16 de abril.

Françoise Frenkel: 70 Anos

Postado por ACG - Associação Cultural Gramado domingo, 12 de fevereiro de 2017 Marcadores: , 0 comentários

O único livro que Françoise Frenkel assinou passou 70 anos extraviado. Reapareceu em um sebo de Nice em 2010, quando foi encontrado por um bibliófilo intrigado pela capa sóbria e pelo título enigmático: Rien Où Poser La Tête (Nenhum Lugar para Encostar A Cabeça). Ao abri-lo, descobriu o testemunho de uma judia polonesa, fundadora da primeira livraria francesa de Berlim em 1921, que cruzou o continente fugindo da perseguição dos nazistas. Da capital alemã a Paris, e dali até Nice, de onde conseguirá cruzar a fronteira suíça após duas tentativas fracassadas. Seis anos depois da descoberta, o livro – sucesso editorial na França em 2016 – chega agora às livrarias espanholas com o título Una Librería en Berlín (Uma Livraria em Berlim). Ainda não há previsão para a publicação da obra em português.

Frenkel morreu em janeiro de 1975. Tudo que deixou foi um punhado de documentos: sua certidão de nascimento, sua assinatura no registro da fronteira suíça, um termo de indenização dos bens confiscados pelos nazistas. Estavam em um baú que continha um casaco de pele de lontra, uma capa de chuva preta, dois vestidos de malha, um guarda-chuva, dois pares de sapatos e duas máquinas de escrever. Isso é tudo o que se sabe dela. Até hoje não foi encontrada nenhuma foto da autora. “Será que precisamos saber mais? Acho que não”, pergunta e responde Patrick Modiano, Nobel de Literatura em 2014 e grande especialista sobre a época da ocupação nazista, no prefácio do livro. “A grande particularidade desse texto é justamente não permitir identificar sua autora de maneira precisa”, acrescenta Modiano. Françoise Frenkel poderia ser uma das personagens do romancista, com o rosto sempre encoberto pela névoa da memória.

A autora terminou o manuscrito em 1944 à margem do Lago dos Quatro Cantões, no coração da Suíça, onde seria publicado um ano mais tarde pela extinta editora Jeheber. Sentindo-se, enfim, a salvo, Frenkel pôs-se a escrever para registrar sua experiência. Mas o fez com rara contenção. Mais que uma denúncia da perseguição e da vida na clandestinidade ao longo de seu périplo, a obra foi concebida como uma homenagem “aos homens de boa vontade e valentia inesgotável” que conseguiram “resistir até o final”. A escritora deixou as passagens mais traumáticas de sua existência fora de suas páginas. Frenkel se esforça para ressaltar a generosidade dos estranhos. Insinua os comportamentos mesquinhos com um irônico desdém. O nome de seu marido, Simon Rachenstein, deportado para Auschwitz em 1942, nem sequer é mencionado.

Também é um relato sobre a paixão pela literatura, que Frenkel sentiu desde muito cedo, quando “podia passar horas folheando um livro com figuras ou um grande volume ilustrado”. Sua livraria, La Maison du Livre, parecia um templo. Frenkel a define como sua “razão de ser”. Por ela passaram André Gide, Apollinaire e Colette. Na Alemanha francófoba pós-Tratado de Versalhes, aquele espaço se tornou um lugar “de esquecimento e desabafo, onde se respirava livremente”. Frenkel também assina uma carta de amor à cultura francesa e aos valores universalistas com os quais continua associada. Seu nome verdadeiro era Frymeta. Françoise foi adotado mais tarde, por causa do apego que sentia por sua pátria imaginária.

Hoje traduzido em sete idiomas, Uma Livraria em Berlim voltou à vida graças ao esforço de Thomas Simonnet, da Gallimard – ele é o editor da coleção histórica L’Arbalète, que inclui títulos de Sartre e Jean Genet – e Frédéric Maria, consultor editorial para a francesa P.O.L. e a espanhola Acantilado. “Várias editoras se interessaram, mas algumas pretendiam introduzir mudanças. Eu me recusei a alterar o manuscrito”, afirma o consultor. Só uma ou outra expressão em desuso foi modificada para facilitar a compreensão. Maria também se encarregou de seguir a pista de Frenkel para verificar a autenticidade do texto e coletar uma série de documentos históricos publicados ao final do livro.

Para Maria, o valor do texto é incalculável. “Frenkel nunca diz explicitamente que é judia, mas se ergue como porta-voz desse povo que busca a terra prometida”, diz ele. Descobrir as páginas deixadas por uma mulher sobre a qual não existia uma única referência na internet até 2010 só intensifica a experiência da leitura. “Prefiro não conhecer o rosto de Frenkel, nem as peripécias de sua vida depois da guerra, nem a data de sua morte”, afirma Modiano no prefácio. “Desse modo, seu livro sempre será, para mim, a carta de uma desconhecida, esquecida há uma eternidade na lista dos correios e que você pensa que recebeu por engano, mas pode ter sido escrita para você”.

(Fonte: El País)

Falecimento do sr. Gerhard Kleine

Postado por ACG - Associação Cultural Gramado domingo, 5 de fevereiro de 2017 0 comentários

É com grande pesar que informamos o falecimento do ex-Presidente da ACG sr. Gerhard Rudolf Kleine, homem que transformou a História da cultura em Gramado, e que muito fez pela preservação da cultura alemã e brasileira.