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Justiça

Postado por ACG - Associação Cultural Gramado domingo, 26 de junho de 2016 Marcadores: 0 comentários

Pode parecer que não faz muito sentido um ancião de 94 anos ser condenado por crimes ocorridos há mais de sete décadas. Mas faz. Na sexta-feira, Reinhold Hanning, ex-SS (acima, na imagem) em Auschwitz, foi sentenciado na Alemanha a cinco anos de prisão por colaborar na morte de 170.000 pessoas enquanto serviu no campo de extermínio nazista. A condenação foi possível graças a uma recente mudança na legislação alemã que permite processar qualquer pessoa que tenha trabalhado em um campo de extermínio, sem a necessidade de apresentar provas de um crime concreto. Em outras palavras, a justiça considera algo que parece consenso: ter trabalhado como vigia em Auschwitz, onde foram assassinadas 1,1 milhão de pessoas, é um crime em si.

A história de Hanning é muito representativa do que ocorreu depois da Segunda Guerra Mundial na Alemanha Ocidental, onde só foram julgados 29 dos aproximadamente 6.500 membros das SS que passaram por Auschwitz (outros 20 foram processados na Alemanha Oriental), um esquecimento recentemente relatado em dois excelentes filmes alemães, Im Labyrinth des Schweigens (Labirinto de Mentiras) e Der Staat gegen Fritz Bauer (O caso Fritz Bauer), que relatam as enormes resistências enfrentadas pelos promotores que tentavam processar os crimes contra a humanidade cometidos pelos nazistas. Hanning foi detido pelos aliados no final do conflito, preso até 1948, quando retornou à Alemanha, onde não relatou a ninguém seu passado e viveu tranquilo até agora.

Apesar dos processos de Nurembergue contra alguns figurões do Terceiro Reich ou da captura e posterior julgamento de Adolf Eichmann em Israel, ou das investigações realizadas em alguns países ocupados, é preciso encarar uma verdade incômoda: a imensa maioria dos crimes cometidos durante o horror nazista ficou impune, embora tenha sido necessário inventar uma nova palavra para descrevê-los: genocídio.

Ao final de sua biografia de Hitler, o historiador Ian Kershaw, que acaba de publicar To Hell and Back. Europe 1914-1949, escreveu: “Muitos dos que tinham maior responsabilidade conseguiram escapar sem punição e, em alguns casos, conseguiram prosperar e triunfar no pós-guerra”. Em 2014, quando começaram a ser reabertos os processos contra guardas de Auschwitz, a revista Der Spiegel publicou uma longa reportagem em que os autores afirmavam: “A punição dos crimes cometidos em Auschwitz fracassou não porque um punhado de juizes e políticos tenha tentado frear esses esforços, mas porque muito pouca gente estava interessada em processar e condenar os perpetradores. Muitos alemães eram indiferentes aos crimes cometidos em Auschwitz em 1945 e assim continuaram”.

As últimas testemunhas estão desaparecendo. Os depoimentos das vítimas são essenciais, mas também os dos algozes, porque ainda não se chegou a compreender o que transformou seres humanos normais em monstros. Talvez esse tipo de sentença retarde esse processo. Entretanto, por mais importante que seja a memória, a justiça o é ainda mais.

(Fonte:DW)

Crianças e Idiomas

Postado por ACG - Associação Cultural Gramado domingo, 19 de junho de 2016 Marcadores: , 0 comentários

Conhecer alguém como Katharina é de dar inveja. Ela tem 11 anos e fala três idiomas fluentemente: espanhol, alemão e inglês. E nunca precisou decorar vocabulário ou regras gramaticais, pois aprendeu os idiomas desde pequena.

Para Katharina, que vive em Colônia, na Alemanha, ter três línguas maternas não é nada de mais. "É a coisa mais normal do mundo", diz encabulada. Ela acha até estranho que outras crianças conversem apenas em alemão com os pais. "Eu sempre penso que falta alguma coisa." O pai de Katharina, Wolfgang, é alemão, e a mãe, Marisa, nasceu na Colômbia e também cresceu num ambiente bilíngue, falando espanhol e inglês. Quando a filha nasceu, para Marisa, que estudou linguística, estava bem claro que a menina também deveria crescer com dois idiomas. "Pensei que isso seria como um presente para ela", conta. Marisa falava espanhol com Katharina; Wolfgang, alemão – ou seja, a típica abordagem "um idioma para cada pai". Acontece que, naquela época, o alemão de Marisa não era tão bom quanto hoje, e ela conversava em inglês com o marido. Nas refeições em família, por exemplo, o casal traduzia tudo o que considerava importante para o alemão ou o espanhol.

Marisa conta que certo dia, quando Katharina tinha 3 anos, a família estava no supermercado e, de repente, a menina começou a falar inglês. "Ela apontou para as coisas e disse: banana, apple, pear", conta Marisa. Ela e o marido ficaram perplexos. Desde então, a língua da família é o inglês.

Crianças que crescem num ambiente multilíngue não têm apenas a vantagem de poder se comunicar com mais pessoas. Segundo pesquisadores, elas têm cérebros mais flexíveis que os de crianças da mesma idade que só falam um idioma.

Crianças multilíngues desenvolvem empatia e conseguem compreender mais cedo que as outras pessoas têm vontades, opiniões e pontos de vista diferentes dos próprios. É o que cientistas chamam de teoria da mente.

Num estudo da Universidade de Chicago, por exemplo, um adulto pediu a crianças que lhe alcançassem o "carro pequeno". As crianças viam três carros – um pequeno, um médio e um grande –, mas percebiam que, de onde estava, o adulto não conseguia ver o menor deles. Crianças bilíngues compreenderam com muito mais frequência que as crianças monolíngues que o adulto estava se referindo ao carro médio, o qual lhe entregaram.

Além disso, crianças que falam mais de um idioma conseguem alternar entre diferentes atividades com mais facilidade, afirma a linguista Claudia Maria Riehl, da Universidade Ludwig Maximilian, de Munique.

Num estudo realizado em Toronto, crianças deveriam classificar quadrados azuis e círculos vermelhos, primeiro quanto à cor, e depois quanto à forma. "As crianças multilíngues conseguiam se desligar da primeira atividade e se concentrar completamente na próxima com muito mais facilidade", afirma Riehl. "A explicação é que, sempre que falam uma língua, elas precisam oprimir os demais idiomas."

Crianças multilíngues também adquirem competências multiculturais. Katharina, por exemplo, tem habilidade para solucionar conflitos entre os amigos, conta a mãe. "Ela também é muito aberta a pessoas de outras culturas. Quando não entende um idioma, ela não vê isso como obstáculo para se comunicar com os outros", diz.

Aprender várias línguas altera, portanto, o cérebro de maneira positiva. As crianças desenvolvem mais substância cinzenta nas regiões do cérebro que controlam a atenção – o núcleo caudado e o giro do cíngulo.

E isso não vale apenas para crianças que crescem com mais de uma língua materna. "Bilinguismo compreende todos os tipos de pessoas que falam dois idiomas – não importa em que nível e em que situações eles falem esses idiomas", afirma Krista Byers-Heinlein, psicóloga da Universidade Concordia, em Montreal. Qualquer pessoa que fale várias línguas tem uma vantagem cognitiva, afirma Riehl. "O cérebro precisa decidir constantemente com que pessoa vai falar qual língua, precisa alternar entre os idiomas e oprimir os demais. Isso estimula o cérebro constantemente."

Ao falar inglês, às vezes falta uma palavra para Katharina. Ela só consegue pensar no termo em espanhol ou em alemão, o qual acaba inserindo no meio da frase em inglês. Misturar idiomas é algo normal para quem cresce num ambiente multilíngue, diz Byers-Hinlein. "É uma estratégia muito inteligente para se comunicar, e de maneira alguma um sinal de confusão."

No entanto, os pais devem saber que o multilinguismo não funciona para todas as crianças. Um estudo realizado na Bélgica aponta que um quarto de todas as crianças que cresce com duas ou mais línguas acaba falando somente uma delas – a que usa na escola para se comunicar com os amigos. A abordagem "um idioma para cada pai" nem sempre é tão bem-sucedida, segundo o estudo. O melhor é quando os dois pais falam o mesmo idioma e um deles fala também a língua utilizada pelo filho na escola.

Para Katharina, aprender idiomas é algo fácil. Além dos três que já domina, logo ela começará a aprender francês na escola – sua primeira língua realmente estrangeira. Pela primeira vez, ela saberá como é ter que decorar vocabulário e regras gramaticais.

Apfelstrudel

Postado por ACG - Associação Cultural Gramado domingo, 12 de junho de 2016 Marcadores: , 0 comentários

"Um dia sem strudel é como um céu sem estrelas", teria dito o imperador austríaco Franz Joseph 1º já no século 19. Hoje, alemães e austríacos se orgulham do Apfelstrudel, feito de maçãs e passas quentinhas e com canela, envoltas por uma crosta de massa folhada polvilhada com açúcar de confeiteiro. Servido com sorvete ou calda de baunilha, o quitute ganhou fama mundo afora.

A origem do doce remete inicialmente ao Oriente Médio, onde a massa de strudel surgiu. Passando pelo norte da África, a receita teria sido levada pelos mouros até a Espanha e a França, de onde se espalhou em direção ao norte e ao leste.

Por muito tempo, os húngaros foram especialistas na preparação do strudel. Até mesmo o confeiteiro do famoso Hotel Ritz, em Paris, teria ido a Budapeste pra aprender os segredos da massa. Na primeira metade do século 19, o strudel húngaro se tornou uma especialidade do estabelecimento parisiense.

Depois de passar pelos países dos Bálcãs e pela Hungria, a massa chegou à Viena. A imperatriz Maria Teresa teria contribuído para a aceitação do strudel na sociedade, e o quitute conquistou todo o Império Austro-Húngaro e a culinária internacional.

O Apfelstrudel é provavelmente a variação mais conhecida da receita, mas as possibilidades de recheios são muitas. Podem ser doces – como o Mohnstrudel (recheio de sementes de papoula) – ou salgados – como o Krautstrudel (recheio de repolho).

O segredo do Apfelstrudel é a massa bem fininha e elástica, o que permite que ela seja moldada com facilidade. É claro que você também pode comprar massa folhada pronta. As maçãs devem ser abundantes e suculentas.

Gosto muito do Apfelstrudel justamente por ele não ser muito doce, permitindo sentir bem o gosto da fruta. E nada melhor que algo quentinho servido com sorvete, não? Já comi alguns excelentes na Alemanha, mas nunca vou me esquecer do que provei num café de Salzburgo, nos jardins do castelo de Mirabell.

Eis a receita básica:

1 ovo batido para pincelar
Para a massa
250 g de farinha de trigo
1 pitada de sal
1 ovo
1 colher (chá) de manteiga
Para o recheio
14 maçãs
50 g de passas
100 g de nozes ou amêndoas picadas
6 colheres (sopa) de farinha de rosca
2 colheres (sopa) de manteiga
1-2 colheres (sopa) de açúcar de confeiteiro
1 dose de rum (opcional)
1 colher (chá) de canela em pó
Suco de um limão
 
Modo de preparo
 
Peneire a farinha sobre uma superfície de trabalho e adicione, no meio, o ovo, a manteiga, uma pitada de sal e um pouco de água. Misture com as mãos até obter uma massa homogênea. Deixe descansar em temperatura ambiente por cerca de uma hora.

Pré-aqueça o forno a 180°C. Descasque as maçãs, retirando o miolo e as sementes. Pique as frutas em cubos grandes. Esprema um pouco de suco de limão por cima e misturar com as passas e nozes. Se quiser, adicione o rum.
 
Derreta a manteiga numa frigideira e aqueça rapidamente a farinha de rosca com um pouco do açúcar de confeiteiro e a canela.
 
Enfarinhe a superfície de trabalho e abrir a massa bem fininha. Passe a mistura de farinha de rosca sobre o terço inferior da massa. Distribua, então, as maçãs por cima desse terço. Enrole a massa, formando uma espécie de rocambole.
 
Pincele o ovo batido sobre o strudel e asse-o, em forma untada, por 40 a 50 minutos, até que fique dourado. Polvilhe com açúcar de confeiteiro e sirva ainda quente com sorvete de creme.
 
(*receita adaptada do site ichkoche.at - Fonte: DW)

Genocídio Armênio

Postado por ACG - Associação Cultural Gramado quinta-feira, 2 de junho de 2016 Marcadores: 0 comentários

Quase por unanimidade, Parlamento alemão quebra tabu e aprova resolução que passa a chamar massacre de cristãos por otomanos na Primeira Guerra de genocídio. Ancara diz que decisão é erro histórico.

O Bundestag (Parlamento alemão) aprovou nesta quinta-feira (02/06), quase por unanimidade, uma resolução que classifica de genocídio o massacre perpetrado há um século pelo Império Otomano contra a minoria armênia. Rapidamente rechaçada pelo governo turco como "um erro histórico", a decisão ameaça arranhar ainda mais as relações entre Ancara e Berlim, desgastadas no último ano devido à crise migratória e ao debate sobre que papel cada país deve ter no acolhimento de refugiados.

De maioria muçulmana, o atual Estado turco admite que cristãos armênios morreram em combates com soldados otomanos a partir de abril de 1915, durante a Primeira Guerra Mundial. Mas rejeita declarações de governos estrangeiros que classificam as mortes – estimadas por historiadores entre 800 mil e 1,5 milhão – de genocídio.

"A resolução adotada pelo Parlamento alemão vai abalar seriamente as relações entre Alemanha e Turquia", afirmou o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Em tom ainda mais firme se manifestou o ministro das Relações Exteriores, Mevlut Cavusoglu: "O caminho para virar páginas escuras em sua própria história não é manchar a história de outros países com decisões parlamentares irresponsáveis e infundadas."

A resposta turca à resolução – aprovada com apoio de todos os partidos do Parlamento e apenas um voto contra – foi chamar de volta a Ancara seu embaixador em Berlim para consultas.
A chanceler alemã, Angela Merkel, minimizou o atrito causado pela decisão."Há muitas coisas que conectam Alemanha e Turquia e, mesmo que haja diferença de opinião em um determinado tema, nossa relação, amizade e laços estratégicos são ótimos", afirmou Merkel, em entrevista coletiva ao lado do secretário-geral da Otan, Jens Soltenberg.

Até que a coalizão de Merkel decidisse impulsionar a resolução, no ano passado, a posição oficial do governo alemão era de lamentar o ocorrido, mas sem mencionar a palavra genocídio – nem de forma oral nem escrita. Num país em que a reconciliação com passado é reiterada todo momento, a postura era constantemente alvo de críticas. Mas a Alemanha tem problemas com a palavra. Há tempos Berlim vinha se movimentando com muito cuidado sobre um terreno político minado. Não se queria estragar a relação com a Turquia, membro da Otan. Assim como o relacionamento com os mais de 3 milhões de cidadãos de origem turca que vivem na Alemanha. Há, ainda, o envolvimento alemão – então aliado do Império Otomano – na catástrofe dos armênios, que pode ser passível de pagamentos de reparações.

Genocídio dos armênios é a interpretação oficial em mais de 20 países, incluindo França, Suíça e Brasil. O termo "genocídio" foi definido pela ONU em 1948 como atos cometidos com a intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso.

(Fonte: DW)