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Cultura no Rádio

Postado por ACG - Associação Cultural Gramado domingo, 10 de abril de 2016 Marcadores: ,

Em cidades erguidas no topo de grandes encostas de basalto ou situadas em pequenos vales, as rádios comunitárias ganharam identidade propondo a permanência da cultura local como causa nobre. O  Rio Grande do Sul foi o berço da colonização europeia, sobretudo de alemães e italianos. É nas cidades do interior  que essa cultura permanece viva e preservada. A identidade cultural imaterial é mantida através da música, nas festas, vestimentas, costumes, danças e, principalmente, pelo idioma.

O município de Teutônia, no Vale do Taquari, preserva suas origens. A pequena cidade com pouco mais de 30 mil habitantes é tipicamente alemã. A influência é percebida logo ao chegar. A arquitetura presente nos prédios históricos e públicos e nos roteiros da Rota Germânica já anunciam a influência. Mas isso fica mais evidente nas conversas da população. Não é preciso ir muito longe, nem gastar muito tempo para encontrar alguém “papeando” em alemão, seja o gramatical ou em dialetos como os falados nas região do Hunsrück,  Plattdeustch ou Sapato de Pau. Se na zona urbana é fácil encontrar os falantes da língua dos imigrantes, na zona rural ela é quase mais falada do que o próprio português. Por isso não é de se espantar que as rádios locais apresentem um programa exclusivamente no idioma alemão.

Na rádio Popular FM, o Deutsches Programm (Programa Alemão) é um dos mais tradicionais da programação. Há mais de dez anos ele é veiculado nos domingos pela manhã e mantém um público fiel. Além de Teutônia, ele atinge as demais cidades do Vale, sem contar o público variado que ouve via internet. Segundo um dos sócios fundadores da rádio, Arno Von Mühlen, o programa surgiu de uma necessidade. “Não existia nenhum emissora desse gênero em nossa região. Então procuramos a professora Waltraude para apresentar o programa e ela aceitou”, conta.

Até 2015, o programa foi apresentado por Waltraude, de 81 anos. Porém, em dezembro, a comunicadora faleceu. Durante os dez anos ela se tornou uma personalidade a frente da atração. Famosa por seus textos e canções, ela imprimiu uma marca muito forte. Apaixonada pela cultura alemã e pela música, procurava passar isso aos ouvintes. Tanto que o Deutsches Programm é conhecido por muitos como “Programa da Waltraude”.

Após seu falecimento, algo tão tradicional não podia parar. Em seu lugar assumiu a professora Ana Elisa Osterkamp Bloemker. Formada em letras pela Unisinos, ela aprendeu a língua durante o tempo em que viveu na Alemanha. Ex-aluna e ex-colega de Waltraude, sentiu a honra e a responsabilidade de assumir o desafio.”Precisava dar minha cara ao programa mas não perder o objetivo de levar esse conhecimento às pessoas”, afirma. Segundo ela, nunca imaginou assumir algo em uma rádio, muito menos totalmente em alemão. Ela acabou criando sua própria forma de conduzir a atração. Hoje o programa é gravado, Ana Elisa passa a semana toda preparando o roteiro do mesmo. Como tem mais facilidade com a fala, mas não tanto com a escrita, escrever o roteiro faz com que ela se aperfeiçoe mais.  O programa é composto de oito blocos. A apresentadora seleciona temas para cada semana. Podem ser datas comemorativas, assuntos que estão em alta, sugestões que vem da rua, músicas, qualquer coisa pode ser um assunto.  O tema é apresentado através de textos, histórias, notícias e músicas. Além disso são apresentados recados, dicas para o lar e receitas. “Já falei de política, música, economia. Procuro ser bem eclética. Trago meu jeito de sala de aula para o rádio e isso faz diferença”, avalia.

Para Ana Elisa o programa tem papel fundamental na preservação cultural. Por isso ela busca atingir um público mais jovem. Desde que assumiu como apresentadora ela tenta trabalhar com músicas e temas mais atuais. “Temos que alcançar o jovem. Insistir nele, porque a manutenção vem desse público”, afirma. Mesmo tendo que doar muito de seu tempo para a elaboração do programa, ela acredita que do ponto de vista cultural vale muito a pena. A professora acredita ainda que o programa valoriza quem vive no interior. “Esse público se sente valorizado. É algo que eles dominam e que a cidade não domina. Há um público fiel”, complementa.

Para manter essa tradição viva, Ana Elisa planeja contar histórias infantis, como nas antigas rádio novelas. “Seria uma ideia que eu desejaria para incentivar o público mais novo, que mesmo não entendendo vai se interessando”, avalia. Seu desejo é a criação de um site para o programa.

O Deutsches Programm tem um público fiel que são os falantes do alemão. Para Ana Elisa foi uma surpresa o alcance do programa. “É muito forte, eu não esperava tanto, não pensava que a audiência era tanta. Não tem um dia que passa que eu não encontro alguém que fala que me ouve, que me pedem a receita que li no programa. É muito bom”, comenta. Ela conta que o carinho do público é recompensador. “É muito gostoso. O pessoal deixa recado, liga para minha casa. Vai até a casa dos meus pais e diz que me ouviu”, comenta.

Segundo Arno Von Mühlen, a importância do alemão é tão grande que chega a atingir outros programas da rádio. “No meu programa tem clientes que pedem para eu falar em alemão”, conta. Segundo ele o público atingido é muito grande. “Tem bastante gente. Inclusive pessoas na Alemanha que ouvem pela internet. Filhos de pessoas que são daqui que estão lá”, diz. Para ele, isso cria uma integração entre o Brasil e a Alemanha.

Elmo Koner é um desses ouvintes fieis do programa alemão. No domingo ele acorda cedinho e já liga na rádio esperando. “A gente ouve porque é de origem alemã e já está acostumado com o alemão. Gosto de tudo no programa”, afirma. Koner tem uma filha que há mais de 20 anos mora na Alemanha e , segundo ele, de lá ela também acompanha a atração, via internet. Ele destaca importância do Deutsches Programm para a preservação cultural e segundo ele, ajuda até nas viagens para ver a filha. “De vez em quando vamos para a Alemanha e com o programa sempre aprendemos mais”, pontua.

Assumir o programa tão tradicional não tem sido fácil para Ana Elisa. Porém, por crer na importância cultural ela continua. “Falta tempo, já pensei em largar. O que me acalmou foi que antes de morrer, a Waltraude disse que estava feliz que eu tinha assumido o programa. Ela disse que confiava em mim. Isso foi positivo, sem isso eu não teria continuado”, conta. Para reforçar ao público a permanência da cultura alemã e o Deutsches Programm, a professora termina as transmissões dizendo: “das Programm geht weiter, das programm muß weiter gehen”. Em português: “O programa continua, o programa tem que continuar’”.

Situado entre encostas na cidade serrana de Serafina Corrêa, a 95 quilômetros de Bento Gonçalves, um estúdio caseiro produz e transmite um programa de rádio para mais de 70 emissoras brasileiras e uma italiana. Taliani Nel Mondo é a criação de Edgar Marostica, um apaixonado pela imigração e suas raízes.

Há 26 anos, Marostica está à frente do cenário cultural da cidade formada por pouco mais 14.200 mil habitantes, sendo 12.677 católicos. A renda per capita é superior a 31 mil, segundo dados do IBGE. “Entre 1875 a 1900, quando ocorreram as etapas de imigração, chegaram ao Rio Grande do Sul italianos de diversas regiões. Naturalmente, os dialetos eram os mais variados. Eles foram se misturando por causa dos casamentos”, afirma Marostica.

O projeto iniciou timidamente na Rádio Odisseia FM (104.9). A maior dificuldade era fazer o programa chegar ao público alvo. Isso porque os moradores do interior não tinham o hábito de escutar rádio FM. O segundo ponto de ruptura era a falta de identificação da população com o resgate cultural proposto por Marostica. “As pessoas faziam questão de dizer que não entendiam o talian. Hoje não. Tenho ouvintes de diferentes classes sociais e opinião formada. Por muitos anos chamavam a gente de colono, de tchó. Nunca tive vergonha, por isso sempre fui admirado”.

Em 2014, o artista foi uma das quatro pessoas no Brasil a receber o certificado de fluente em talian, língua reconhecida no Brasil pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “A gente não fala mais dialetos. Todos foram unificados e formaram uma nova língua totalmente nossa. Não é errado falar palavras italianizadas do português. O padrão gramatical da Itália não nos diz respeito nenhum, porque os imigrantes vieram do norte do país. Nas escolas italianas era ensinado o seu dialeto”, observa.

Após mais de cem anos de sotaque cantado e “erres” pronunciados com intensidade diferente, como em “bariga”, o talian deixou de ser motivo de vergonha para entrar pela porta da frente. Desde 2009, uma lei municipal instituiu o idioma como co-oficial. Por enquanto, o único caso no país. Há até um dicionário português-talian elaborado pelo escritor e professor Darcy Loss Luzzatto.

Comandado por Armando Gusso, ex-prefeito de Carlos Barbosa (mandatos 1977 a 1983 e 1988 a 1992), o programa Domenica in L’América reúne bom humor, mensagens, orações, músicas e participação de ouvintes. Veiculado na rádio Estação FM aos domingos pelas manhãs, surgiu devido ao grande número de descendentes de italianos residentes no raio de abrangência. “É de suma importância, uma vez que, a nossa região foi colonizada por imigrantes italianos e não poderíamos deixar de homenagear estes bravos, pelo que fizeram em prol de nossas comunidades”, destaca o diretor da Estação FM, Verealdo Chies.

Há 14 anos, Gusso promove um resgate cultural não apenas para aqueles que se identificam com a Itália, mas também à outras 12 etnias formadoras da população barbosense. Para ser ainda mais fidedigno, o comunicador realizou uma capacitação em talian, organizada pelo escritor Darcy Loss Luzzatto. “Recebo ligações de muitos lugares. Até da Itália, da Alemanha e da Suíça. O que procuro é contribuir para a memória da cidade e de toda luta das pessoas que levaram um ano para chegar até aqui, depois que desembarcaram no Rio de janeiro em meados do final do século 19”, salienta Gusso.

(Fonte: Núcleo alemão Paloma Cristine Griesang – Núcleo italiano: Priscila Boeira)

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