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Grupo Zero: Exposição

Postado por ACG - Associação Cultural Gramado domingo, 5 de janeiro de 2014 Marcadores: , ,

Aberta em dezembro na Fundação Iberê Camargo de Porto Alegre, a exposição Zero, que reúne 24 artistas europeus e latinos direta ou indiretamente ligados ao movimento homônimo alemão, criado em 1957, chega em março a São Paulo. A mostra será montada na Pinacoteca do Estado com obras históricas assinadas pelos fundadores do Zero, Heinz Mack e Otto Piene, ambos vivos, e de artistas que tiveram seus nomes vinculados às propostas revolucionárias da dupla alemã, entre eles o francês Yves Klein (1928-1962), o italiano Piero Manzoni (1933- 1963), o argentino Lucio Fontana (1899-1968), o venezuelano Jesús Rafael Soto (1923-2005) e os brasileiros Almir Mavignier e Lygia Clark (1920-1988).

Com curadoria da historiadora de arte Heike van den Valentyn, de Colônia, a mostra integra o calendário da Temporada Alemanha + Brasil 2013- 2014, contando com a parceria do Goethe-Institut da Alemanha e apoio do Ministério NRW e Pro Helvetia. É uma rara oportunidade de comprovar a convergência das propostas do Zero e da arte brasileira de tendência concretista. A relação, porém, não é direta, como bem observa o crítico Paulo Venancio Filho no catálogo da mostra, especialmente se for considerado o período em que surge o Zero, quando o Brasil assume o papel de satélite da cultura norte-americana, escapando aos poucos da influência europeia.

É certo que a ressonância das ideias da dupla Mack e Piene, estabelecidos em Düsseldorf, atingiu o Brasil num momento em que o abstracionismo informal dava sinais de exaustão na Europa. O País vivia, então, um momento de afirmação de sua modernidade com a construção de Brasília e a sedimentação do movimento concreto. O desenvolvimento tecnológico, segundo Venancio Filho, desempenhou um papel fundamental na difusão do pensamento de Mack e Piene no Brasil. Novos materiais - resinas, plásticos, tinta acrílica - exigiam dos artistas, no fim dos anos 1950, uma sintonia com a realidade industrial. Duas peças que estão na mostra Zero, da artista carioca Lygia Clark, ligada ao grupo neoconcreto, confirmam que não era aleatória a escolha de materiais como o alumínio (usado no "bicho" Relógio do Sol, de 1960 (imagem acima).

Na mesma época, outro brasileiro, Almir Mavignier, integrou-se ao grupo alemão em 1961, na sétima "exposição noturna" do Zero (algumas realizadas no pequeno ateliê de Mack e Piene). Três anos antes, Yves Klein, que viria a ser um dos principais mentores do grupo, lá apresentou um de seus trabalhos monocromáticos radicais, de um azul intenso, tonalidade vista pelo crítico inglês John Anthony Thwaites (1909-1981) como um "céu noturno sem dimensão, material ou peso". A criação desse espaço por Klein impressionou Otto Piene. O alemão, conhecido por suas experiências com luz, identificou outro artista, além de Klein, capaz de criar uma nova dimensão espacial: Lucio Fontana. Pesquisador incansável, o artista argentino usava fontes de luz atrás das telas perfuradas dos seus "concetti spaziali" para produzir projeções cintilantes no espaço, como lembra a curadora Heike van den Valentyn.

À primeira vista, pode parecer deslocada a presença na mostra de artistas como Barsotti, Lygia Clark e a venezuelana de origem alemã Gego (1912-1994), mas a curadora justifica a inclusão: "É possível estabelecer diversos paralelos entre o alemão Zero e o grupo neoconcreto brasileiro". Os neoconcretos, recusando o "objetivismo mecânico" dos concretos paulistas, estariam próximos de Mack e Piene por rejeitar o racionalismo dos concretos europeus - e nunca é demais lembrar que a dupla participou de uma mostra organizada por Max Bill na Züricher Helmhaus, em 1960.

Por essa época, duas tendências marcaram claramente a divisão entre os artistas vinculados ao Zero, segundo Otto Piene: "A tendência idealista, focada em promover a alteração de objetos e seres humanos, do escuro para o claro, e o novo realismo francês (Yves Klein, Tinguely, Arman e outros)". Mack e Piene eram, claro, os idealistas. Juntou-se a eles Günther Uecker. Os três apresentaram, em 1964, um salão de luz na Documenta de Kassel. O trio realizaria ainda outras mostras conjuntas até optar por carreira solo nos anos 1970 (em 1971, Uecker ganharia o prêmio da crítica na Bienal de São Paulo).

O Zero acabou em 1966 com uma performance: um carro em chamas lançado ao Reno. Foi uma centelha legada às novas gerações, um desafio à arte institucionalizada. A estética da luz e movimento deu frutos e pode ser vista até 2 de março em Porto Alegre. A mostra, que passou antes pelo Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, será aberta dia 3 de abril na Pinacoteca, em São Paulo. 

(Fonte: Estadão)

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