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Os Cadernos de Beethoven

Postado por ACG - Associação Cultural Gramado domingo, 25 de agosto de 2013 Marcadores: ,

Beethoven deixou testemunhos biográficos preciosos em cadernos de conversação. Em princípio, sua finalidade era garantir a comunicação mesmo com o avanço da surdez. Mas resultaram em documentos preciosos sobre a arte e vida do compositor: neles, a "Missa solene" está lado a lado com ostras e vinho. Gerhard von Breuning, amigo de Ludwig van Beethoven (1770-1827), registra em suas memórias que um "caderno de correspondência, completo com lápis" estava sempre à mão quando o compositor recebia visitas. Lá, estas anotavam suas contribuições à conversa, e na maioria das vezes ele geralmente respondia oralmente. Mas o músico atormentado pela surdez também usava os cadernos para esboçar ideias musicais ou fixar pensamentos importantes. Assim, os chamados "cadernos de conversações" (Konversationshefte) não só permitem uma olhada em sua "oficina musical", como também dão uma visão bem próxima do ser humano por trás do gênio. Para o especialista beethoveniano Emil Platen, trata-se de um tesouro de valor inestimável. "Os cadernos são tremendamente importantes para a pesquisa biográfica sobre Beethoven. Com sua ajuda, pode-se ter uma visão bem precisa de suas circunstâncias de vida, de 1818 até a morte", comentou à DW. Os cadernos tematizam tanto ocorrências cotidianas banais quanto questões de relevância musical. "Muitas vezes o assunto é apenas comida, ou problemas com o estafeta, e, mais tarde, doenças e tentativas de terapia", conta Platen. "Mas também pode ser a atualidade cultural e social de Viena." Assim, enquanto numa página de um dos cadernos de conversação encontra-se uma conta de vinho, carne de vitelo e ostras, na página ao lado encontram-se esboços para Et vitam venturi saeculi, um dos movimentos do Credo da Missa solene. 

Durante muito tempo, o valor documental dos cadernos era considerado questionável, pois após a morte de Beethoven, eles caíram – presumivelmente de forma ilícita – em poder de Anton Schindler, secretário do compositor nos últimos anos e seu primeiro biógrafo. Ao preparar a biografia, Schindler instrumentalizou os cadernos para seus próprios fins. Muitos, ele destruiu; em outros incluiu diálogos inventados, visando se estabelecer como aquele a quem Beethoven confiava todos os desejos referentes à prática de execução e aos andamentos de suas obras. Os contemporâneos do ex-secretário já suspeitavam de fraude, porém apenas no século 20 foi possível desmascarar numerosas inverdades. Entre os visitantes que constam dos cadernos estão amigos de Beethoven, seu irmão Johann e seu sobrinho Karl, mas também contemporâneos importantes, como o poeta Franz Grillparzer, os compositores Carl Czerny e Gioachino Rossini, além do prodígio pianístico Franz Liszt, na época contando apenas 11 anos de idade. [...] 

Grande parte dos cadernos trata das obras beethovenianas. Aqui, ele se mostra, acima de tudo, um artista cheio de autoconfiança. Sobre a Missa solene, escreve: "É uma obra da eternidade". Quando, em 1822-23, um visitante opina que o artista deve ceder ao espírito de seu tempo, Beethoven replica que jamais fará tal coisa: "Senão, acabou-se toda a originalidade. Não posso recortar e modelar minhas obras segundo a moda, como a gente quer: o novo e original se gera a si mesmo, sem que se pense a respeito." Em março de 1820, ele já se expressara de modo semelhante: "O mundo é um rei, e quer ser adulado – porém a verdadeira arte tem vontade própria, não se deixa constranger dentro de formas aduladoras". Ao ser informado de que os espectadores haviam reagido com incompreensão a um de seus últimos quartetos de cordas (possivelmente o Nº 13, em si bemol maior, opus 130), o post de Beethoven é bem sumário: "Uma hora vão gostar. Eu sei, eu sou um artista".

(Fonte: DW)

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