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Os Diários de Humboldt

Postado por ACG - Associação Cultural Gramado sábado, 25 de maio de 2013 Marcadores: ,

Caso fracassem as negociações entre a família e o governo alemão, os diários da viagem que Alexander von Humboldt fez à América do Sul poderão ser leiloados. Eles correm o risco de desaparecer em um cofre particular. 

Para entender o mundo é preciso percorrê-lo e medi-lo. Esse lema perseguiu Alexander von Humboldt – de forma bastante consequente. Como vulcanólogo e alpinista, no Equador, ele escalou o vulcão Chimborazo, de 6.300 metros de altitude. Como naturalista, na Guiana, ele se deixou picar pelos insetos que colecionava. Em países como México, Peru e Colômbia, ele fez registros da altitude e localização de costas e lagos, anotando também a temperatura do ar e da água. Mas além de toda a coleta de dados, o romântico Humboldt podia também entrar em transe ao escutar o concerto noturno de pássaros e outros animais na floresta. Em 1799, ele viajou como pesquisador para a América do Sul. Quando voltou para a Europa, em 1804, partiu como amigo do continente americano. Não foi à toa que o herói da independência venezuelana, Simón Bolívar (1783-1830), considerava Humboldt "o verdadeiro descobridor do continente". 

As descobertas de Humboldt foram documentadas meticulosamente. Sempre que teve tempo, ele anotou os dados das medições em seus diários e descreveu as impressões cotidianas, reunindo 3.442 páginas de ensaios científicos com base em suas pesquisas de campo. Escritos principalmente em francês, mas também em alemão e com eventuais palavras em latim, decorados com desenhos a mão livre e artefatos colados nas páginas, os nove volumes que compõem os diários são mais do que apenas um documento sobre os países visitados. Para Eberhard Knobloch, diretor do Centro de Pesquisa Alexander von Humboldt na Academia de Ciências de Berlim-Brandemburgo, trata-se não somente "dos mais abrangentes, mais também dos mais famosos diários que um viajante jamais elaborou". Assim, foi grande o alvoroço quando veio a público a notícia de que esses diários estariam à venda. Na pior das hipóteses, eles poderão ser vendidos à melhor oferta – e desaparecer nos cofres de um proprietário particular. 

Depois de serem diponibilizados na Biblioteca Estatal de Berlim a cientistas após a Segunda Guerra Mundial, os diários foram devolvidos em 2005 aos herdeiros legítimos de Humboldt, a família Von Heinz. Como a família havia prometido manter o acesso público aos diários, perdeu-se a oportunidade de colocá-los na lista de patrimônios culturais nacionais. Um grande erro, pois agora os herdeiros podem retirá-los do país sem problemas e levá-los a leilões internacionais de alto nível. Bem lembrado: poderiam. Pois a família ainda está em negociações exclusivas com a Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano. No entanto, o preço pedido pelos herdeiros é bastante elevado – fala-se em mais de 10 milhões de euros –, e o orçamento estatal mesmo na rica Alemanha é escasso. Caso não se chegue a um acordo, não faltarão ricos compradores particulares. [...] 

Ainda hoje, a variedade de dados precisos dos diários interessam não somente a pesquisadores de Humboldt, mas também a climatologistas, por exemplo, em busca de informações sobre antigas linhas de precipitação de neve ou temperatura da água. Para melhorar o acesso a esses dados, eles têm de ser preparados segundo métodos editoriais modernos, diz Knobloch. Atualmente, apenas microfilmes dos nove volumes estão disponíveis publicamente. Um trabalho completo de avaliação do material só é possível com os originais, explica o pesquisador de Humboldt. Se os diários estarão disponíveis, vai depender do curso das negociações.

(Fonte: DW)

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